... uns passos ...
pra quem vai e pra quem vem
CARTAS PARA ULISSES
II.
Ulisses, amado,
Estou prenha de letras
E ponho para fora palavras todas as manhãs.
Não sei quando vens,
Mas não te demores, por favor!
Mais dia, menos dia,
Terei que parir um verso.
Ulisses, amado,
Estou prenha de letras
E ponho para fora palavras todas as manhãs.
Não sei quando vens,
Mas não te demores, por favor!
Mais dia, menos dia,
Terei que parir um verso.
CARTAS PARA ULISSES
I.
Teço minha palavra sã,
Ulisses,
No aguardo do teu regresso.
E é terna e de luta a minha palavra,
Mas não compõe um verso sequer
Antes da tua chegada.
Teço minha palavra sã,
Ulisses,
No aguardo do teu regresso.
E é terna e de luta a minha palavra,
Mas não compõe um verso sequer
Antes da tua chegada.
Vejo já nossos passos,
Forasteiros pés na grande feira.
Nós de mãos dadas,
Uma senhora tecendo rede,
O homem vendendo o peixe
Que eu nem sei se tem por lá.
Depois, as mãos soltas:
Escolhem fruta, pão, queijo, farinha.
Tudo o que nos sustente.
Eu pego o vaso de barro,
As flores para por dentro dele,
Um pedaço de chita.
Que também é de se enfeitar
A casa que será nossa.
Não te poderia prender jamais nesta terra, meu bem
Então deixa a saudade aqui e vai
Vai e me redija de lá uns versos
Me faça uma canção
Ensaia aquele solo e volta contente pra me mostrar
Vá
Que te farei também uns versos
Ouvirei nossa canção
E só não tocarei um instrumento
Por constrangedora e absoluta falta de talento para tanto
Vai, meu bem,
Que a vida te chama e eu te espero
No aeroporto, na rodoviária
No cais, no porto,
Na beira da estrada
Na estação do metrô que nós não temos
Vá e volte
E diga que não me deixará jamais
E depois vá de novo
E me encharque de saudade
E me faça mais uns versos
E ensaie uma canção...
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